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E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para não morrer
Nascer a primavera
Para não morrer
Vinicius de Moraes
Foi assim comigo há mais ou menos um ano, quando nasceu o texto que abaixo se publica. Foi ainda assim há dois, três anos atrás. E é hoje da mesma maneira.
Tarda-me a Primavera nos meus olhos aguados de vento.
Tarda-me o sol nas pregas engelhadas da rota alma.
Tarda-me o riso dos pardais nos braços desamparados.
Tardam-me os dias quentes, soltos, saídos de dentro deste tempo esquecido do tempo.
Tarda-me a exultação de outro vir, de outra vez ser.
Tudo em mim grita uma urgência de sentir a vida a emergir do âmago da vida.
Seguro os olhos nas árvores que tentam em vão velar a sua nudez envergonhada com ténues tules de uma cor ainda sem cor.
Os meus olhos teimam mergulhar nos segredos que fermentam o novo renascer. Detêm-se e observam no limite próximo da orla do parque uma fileira de galhos juvenis semeados de pontos brancos, pequeninos miosótis, pendurados, mal aconchegados num incipiente leito de vermelho ocre a prometer uma folhagem quente e atrevida, a querer quebrar o longo letargo frio em que tudo, mas tudo, se retrai, encolhe, implode para existir na mera potencialidade do porvir.
Segreda-me a razão que o ciclo se há-de cumprir. E cumprir-se-á. Com o tempo dos segundos transformado em tempo de minutos, horas, dias, semanas talvez.
Ocorre-me que toda uma vida humana se pode resumir ao ciclo de um ano da vida de uma frágil semente.
Faço o exercício e sumario a vida a esse tempo único:
Febril o primeiro trimestre a brotar das gretas da terra, a deixar-se engavinhar, a crescer, a soltar-se, a subir, subir, subir...a segurar o mundo na mão, a proclamar e a olhar com sobranceria inocente o mundo.
Ávido o segundo trimestre a engalanar-se de cores berrantes, a ufanar nos raios doirados da glória, a engravidar o conhecimento, a dar vida, a fazer-se criador. A dominar e a ser dominado, a vencer ou a ficar para sempre vencido.
Prenhe o terceiro trimestre a colher o que, mesmo sem saber, semeou. A observar, a escutar, a integrar e a aceitar. A curar feridas e a ir para lá das dores. (ou não...)
Raso o quarto trimestre: primeira hipótese, a ficar imbecil; segunda hipótese a tocar os limiares da sabedoria e a adivinhar a eternidade das coisas.
E é na antecipação do eterno repetido que o mito primavera me persegue.
Ou será um medo insidioso de que o ciclo natural se subverta e com ele a desesperança da minha reinvenção?
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