O prolongado almoço e o calor fizeram-me cair numa sonolência lânguida. Sentei-me à sombra da cerejeira do jardim e as pálpebras cederam ao peso do que pareciam séculos sem descanso.
Senti-me resvalar por um túnel escuro, com uma inclinação profunda e acentuada. O meu corpo tornara-se leve, tão leve como a pétala que acabara de me cair na face e eu ia deslizando como se flutuasse numa onda de vento e luz.
O que parecia não ter fim, por fim parou.
Quis perceber onde estava mas não conseguia distinguir fosse o que fosse. Parecia que tinha penetrado no breu da eternidade. Usei as mãos para me situar e percebi que tinha acabado de transpor uma porta larga e pesada ladeada por grossos reposteiros de veludo, como nos castelos e palácios de outrora. As paredes eram de pedra nua, húmida e áspera. Tropecei e caí de bruços sobre um tapete macio de lã bem cardada. Ao tentar levantar-me, segurei o que depois percebi ser uma fina toalha que cobria um mesa grande e redonda preparada para um banquete.
Comecei a ouvir vozes que se aproximavam cada vez mais. Escondi-me debaixo da mesa e senti o odor do fumo das tochas que os criados transportavam para iluminar o salão. As portas abriram-se e uma luminosidade bruxuleante foi clareando as sombras à medida que as tochas eram colocadas em lugares estratégicos. Seguiram-se passos sem conta. Uns, pesados e seguros como de quem carrega o mundo ou tem a missão de o defender. Outros, mais leves e saltitantes, certamente das damas que, entre risos e comentários alegres sobre as cores resplandecentes dos vestidos, dos artísticos penteados em trança e das fitas de seda que os enfeitavam, procuravam os seus lugares à volta da mesa seguindo as indicações de uma voz que, apesar de denotar autoridade, era ao mesmo tempo afável e brincalhona. Percebi que o homem a quem essa voz pertencia era o centro das atenções e das conversas dos cavaleiros que ia sentando à sua volta por grau de parentesco e intimidade. A todos brindava com um comentário de apreço e de afabilidade.
A um sinal sonoro, começou um desfile de criados servindo iguarias delicadas. Misturavam-se os cheiros do alecrim no peixe assado, os do tomilho nas diferentes peças de carne de veado, porco e novilho com as conversas sobre estratégias de combate aos ferozes homens do Norte que uma vez mais perigavam a paz, a ordem e a lei que o amado rei conseguira estabelecer na Bretanha. Sobressaía ainda um cheiro forte a pão recém-cozido e a bolo de mel. A cerveja de cevada e o vinho estavam a devolver um tom ligeiro à conversa e tinham começado a circular tacinhas com água perfumada com pétalas de rosa para os convidados lavarem as mãos, quando, de repente, o salão silenciou aos primeiros acordes enfeitiçadores de uma harpa e da voz rica, doce e forte de um bardo.
E, como por sortilégio, eu tinha deixado de ser a testemunha silenciosa debaixo da mesa. Era agora o bardo e dedilhava e cantava poemas de amor, de conquistas, lendas de deusas, druídas, florestas e mistérios.
Ao entreabrir os olhos sob o manto rosa das flores da cerejeira, sentia ainda nos dedos o suave roçar das cordas da harpa e ressoavam-me, mansas, as últimas notas. Uma memória antiga insinuava-se-me tomando forma, para logo se desvanecer na bruma do esquecimento.

1 comentário:
Há textos que nos enfeitiçam... Que delícia de sonho, Irene! Quem me dera ter uma cerejeira no jardim!...
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