“Perdoa-me, não por te deixar, mas por ter ficado tempo demais” Marguerite Yourcenar
Sentiu na tristeza fria da madrugada uma suave companhia. Os tons rosa pálido davam cor ao branco esmaecido do céu. Era o dia a vencer a noite. A tranquilidade a fazer esquecer os pesadelos nocturnos. A claridade a encher o vazio das sombras. A dualidade a justificar a sua existência.
Ia já na quinta camisa. Ele gostava delas bem engomadas, à antiga. Mas já há muito que ela não punha nessa tarefa a sua atenção e ele queixava-se, não raras vezes, de um colarinho com rugas ou de um punho mal vincado.
Entretanto fizera-se um silêncio desusado. Nenhum duche a correr, nenhuma porta a bater, nem os usuais passos nas escadas. Lá fora, o rosa desaparecera do céu e castelos de nuvens brancas mudavam de cor e acotovelavam-se na vontade escura de existir. Elsa desejou que as pingas de chuva que pairavam no ar, sem no entanto conseguirem cair, se derramassem e lhe lavassem a inquietação. Enquanto, distraída, tirava os vincos que o calor excessivo da máquina de secar deixara nas mangas da camisa, um salpico, que tanto podia provir de um descuido seu com o borrifador como de uma providencial gota caída das nuvens, atingiu-a e uma decisão clareou-lhe a consciência. Com a vastidão do deserto no olhar, pousou o ferro, pendurou a camisa num cabide e guardou-a no armário. Seria a última vez que fecharia alguma coisa num armário, pensou.
Olhou-se ao espelho. Uma vez que tomara aquela decisão achou que alguma coisa em si deveria ter mudado. Mas não. Aparentemente o espelho devolvia-lhe uma imagem igual. O mesmo corpo delgado, ainda a mesma expressão de cansaço no rosto, as mesmas mãos desamparadas. No entanto, o seu olhar, esse sim, estava diferente. Embora de forma subtil, o espelho devolvia-lhe o olhar de quem sabe que o seu ser autêntico queria começar a existir por completo. Fora daquela ilusão, dele e daquela casa. Na sua solidão.
Lembrou-se dos últimos anos. A ansiedade que precedeu o seu casamento com o Jorge em quem depositara todas as expectativas da comunhão que os primeiros amores lhe tinham negado. As suas esperanças e esforços para ser feliz com ele já que não lhe passava pela cabeça que o pudesse ser de outra maneira. As primeiras desilusões. Os pequenos segredos. As zangas e discussões. As pretensas inocências. O desalento. Os silêncios embaraçosos que nenhum sabia já como preencher ou evitar. A incomunicabilidade crescente. As desistências e cansaços.
A certeza de que tinham sido ilhas que se tocaram mas que não se entenderam, era sua há um bom tempo. No entanto, faltara-lhe a coragem e determinação para destruir a última ponte.
Hoje, a crueza fria da manhã, apenas aquecida pelo vapor saído do ferro de engomar, clareara-lhe o inexorável caminho. O seu caminho. E, decidida a encontrar o sentido das coisas pôs-se ao caminho, sabendo que não há caminho. Que se faz caminho ao andar.
Já na rua, quis deixar-lhe uma mensagem. Numa folha do seu bloco de notas escreveu:
“Perdoa-me, não por te deixar, mas por ter ficado tempo demais” Marguerite Yourcenar
Enfiou-a por debaixo da porta da rua e imaginou-se a encontrar o fio que a ligaria de volta a si e à vida.
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