O dia apanhou-me com vontade de limpezas, daquelas que só acontecem duas a três vezes por ano. E foi no meio delas, que dispersas memórias da infância longínqua fizeram caminho.
Daqui a dois dias é domingo de Páscoa, vem-me à cabeça, enquanto lavo as pequenas lâminas do estore.
Esta era a altura, por excelência, das grandes limpezas, na casa dos meus pais. Esvaziavam-se armários, lavavam-se os pratos, as travessas e os copos. Polia-se o cobre e o bronze, nutriam-se as madeiras, não com óleo de cedro, mas com uma mistura artesanal. Baixavam-se os cortinados e voltavam a pendurar-se com cheirinho a lavado. A cera fresca perfumava e dava brilho ao soalho.
A Páscoa deste ano acontece já com a Primavera adiantada. O arbusto, que me lembra outro da minha infância, já floriu e derramou a sua brancura. Os melros correm atrevidos na relva aparada, pavoneando a sua elegância, vestidos de preto com um toque laranja que os distingue sem os tornar vulgares. Os pardais saltitam de ramo em ramo numa alegria contagiante. Até já as andorinhas andam por aí em maratonas rasantes.
Era assim também então. Quando se ouvia o cuco, sabia-se que a Primavera estava instalada. E que o Verão não tardaria. A grinalda no quintal purificava o seu verde com míriades de pequenos pontinhos brancos. Era o tempo das grandes certezas. Eu não conhecia ainda o conceito de impermanência. Parecia que tudo seria eterno e imutável. As pessoas e as coisas estariam lá, ano após ano. O pai e a mãe nunca nos iriam faltar. A cada bucólica Primavera, os campos enchiam-se de verdes ondulantes semeados de cores garridas. Depois, infalivelmente, viriam os calores do estio, as colheitas, os banhos no rio caprichoso que, em alturas de maior seca, se esgueirava para outras paragens. Os ouriços dos castanheiros, grávidos, abriam-se a partos prematuros, soltavam as primeiras castanhas em camas de folhas e prenunciavam as primeiras chuvas e ventos. E, claro, o frio, as geadas, a neve e o gelo haveriam de trazer o Natal e convidar o menino Jesus, que haveria de crescer e depois morrer e ressuscitar. Era sempre entre Março e Abril que isso acontecia. Esse, o dia em que ele ressuscitava, a par com o Natal, era para nós, garotos, um dos melhores dias do ano. Chamávamos-lhe, na minha aldeia, a Festa de Flores. Os santos, tapados com panos roxos, durante toda a semana que antecedia esse dia, o reviver do sofrimento penoso da via sacra, as chagas de um Cristo crucificado que a Igreja ostensivamente mostrava, tudo isso servia apenas de pano de fundo ao encantamento de uma miúda enamorada com os sons e os cheiros da Primavera e no júbilo antecipado de estrear vestido e sapatos. Não era só na limpeza das casas que as pessoas punham o seu brio. Aprimoravam também a sua toilette numa garridice deliciosamente juvenil. Quezílias e mal-querenças, se as houvera, haviam-se purificado nas penitências quaresmais. O tom festivo da renovação pairava no ar acima de tudo. Era alegria pura que o meu pequeno eu recebia de vontade aberta. Sem o saber, abria-me a outras influências que a festa tinha. Os símbolos mais conhecidos desta celebração religiosa são a união de arquétipos de várias culturas. Os ovos, símbolos oficiais da Páscoa desde o século XVIII, são o símbolo da vida. Representam o nascimento, a renovação e a criação cíclica. O coelho, o símbolo máximo da fertilidade inesgotável. Ambos vêm de Ostera ou Ostara, a Deusa da Primavera para os antigos pagãos da Europa. O chocolate, iguaria tão prodigamente usada, era um elemento considerado sagrado pelos maias e astecas. O cordeiro, além da simbologia cristã, carrega a secularidade sacrificial do povo hebreu.
A par com uma ressurreição, de que ouvíamos falar e vagamente compreendíamos, celebrávamos, na pujança da nossa vida, a chegada da Primavera e o renascimento da terra.
E, a cada Primavera, a cada Páscoa ou Festa de Flores, renovávamo-nos todos na esperança do existir.
E era com vozes triunfantes que uns, bem cedo na manhã do domingo pascal, punham fim a um jogo iniciado logo após os desmandos carnavalescos, mandando os seus pares “rezar” e ganhando assim um punhado de amêndoas doces, normalmente do tipo francês. Nesse tempo, a indústria da doçaria pascal era modesta, não tentava o mercado com a enorme quantidade de variedades e sabores que nos fazem hoje ganhar quilos só de olhar os escaparates das lojas gourmet, pastelarias e supermercados. As amêndoas mais requintadas da época eram as francesas. Ah, e também as de licor, pequenas drageias de açúcar em forma de passarinhos, feijões, favas, bolotas, ninhos ou ervilhas, recheadas de suaves licores sem álcool. Por serem tão bonitas e delicadas eram as minhas preferidas.
Era uma conquista admirável sair-se vencedor nessa disputa. Aquela noite arrastava-se sempre lenta, entre estremecimentos e sobressaltos. Cada qual queria ser o primeiro a levantar-se e a procurar um esconderijo estratégico para surpreender o rival ensonado. As amêndoas ganhas eram um prémio secundário. A verdadeira vitória saboreava-se quando o inesperado grito “reza!” punha na cara abismada do outro a decepção irremediável da perda. Depois, chegava a hora da missa. E, lá em cima no coro, juntavam-se as crianças com cestinhas cheias de pétalas de flores, para quando a procissão saísse à rua as deitarem, em chuva, sobre o pálio e sobre os fiéis. Era a única vez no ano que nos era permitido lá estar e eu desfrutava dessa liberdade com o ar compenetrado de quem cumpre uma missão sagrada.
Estamos outra vez nas vésperas da Páscoa.
Em casa, afinal grande para um só ocupante, os únicos símbolos da época, (direi Páscoa? Primavera?) são as flores com que a enfentei. Não há ovos, coelhos, amêndoas ou folares. Amanhã o almoço, em família, será cordeiro. Simplesmente porque sim. Apesar de conhecer a origem da tradição.
Procuro, cada vez mais, os símbolos dentro e não fora de mim.

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