terça-feira, 19 de abril de 2011

Poesia


Trata-se da poesia do filme Poesia  do coreano  Lee Chang-dong, há já bastante tempo em cartaz num dos cinemas de Lisboa.
Entre estupefacta e emocionada fiquei ontem, no final da fita, pregada à cadeira a ver uma ficha técnica a passar lenta, expressa em caracteres que não entendia, mas que prolongavam o espelhar das águas escuras e inquietas de um rio, repositório de vergonha e indignação silenciada e testemunha de  aconteceres banais e significativos.
É o rio que abre e encerra o filme. No meio ficam as emoções de uma história contida, com um enredo escondido, ou pelo menos não mostrado, para o espectador descobrir nas pistas que vão sendo deixadas.
À personagem central do filme, Mija (Yun Jung-hee), é dada a incumbência  de fazer determinadas escolhas éticas. E a beleza do filme, sem qualquer banda sonora, está em acompanhar o olhar contemplativo e as opções que essa mulher, de mente inquieta e perto dos setenta, vai fazendo.
Na decisão tardia de recuperar uma paixão da tenra idade, inscreve-se num curso de poesia. Logo na primeira aula, ouve o professor dizer que o difícil não é escrever poesia; o difícil é encontrá-la no coração e que o caminho para alguém encontrar a sua voz está em ver e sentir verdadeiramente as coisas. E ela começa a procurar beleza em todo o lado, nas roupas que veste, nos pássaros, nas flores,  nas árvores, ao mesmo tempo que a realidade  a vai confrontando com a sua dureza e fealdade. Toma conhecimento da responsabilidade moral do neto a seu cargo,no suicídio no rio, de uma jovem estudante, a quem ele e mais cinco rapazes repetidamente haviam violado. Toma ainda conhecimento da sua doença em processo irreversível. E Mija vai aprender que tal como existe luz e escuridão, a beleza também anda a par com a sujidade e com o sofrimento. E que escrever poemas será isso mesmo. Na busca estéril de escrever o seu primeiro poema, objectivo final do curso, vai anotando as suas observações num caderno, ao mesmo tempo que o Alzheimer lhe força o esquecimento das palavras do seu quotidiano.
Na sua incapacidade para lidar com a hipocrisia que a rodeia, Mija parece querer fugir  a tomar uma posição mas, ao mesmo tempo que matura o seu poema, nela vai amadurecendo também a decisão ética de não pactuar com  a impunidade. Com pequenos gestos simbólicos, em silêncio, prepara o neto para a expiação.
 E, como se transferisse para si o destino da jovem suicida, escreve uma confissão de amor e despedida no poema que deixa para ser lido na última aula do curso:

Como é lá?
Quão solitário é?
Ainda é vermelho ao pôr do sol?
Os pássaros continuam o seu canto no caminho para a floresta?
Podes receber  a carta que não ousei  enviar?
Posso transmitir a confissão que não ousei fazer?
O tempo passará e as rosas desaparecerão.
Agora é hora de dizer adeus.
Como o vento que permanece e depois vai,
exactamente como as sombras.
Para as promessas
nunca cumpridas,
para o amor
mantido até ao fim.
Para a relva que beija
os meus tornozelos cansados
E para os pequenos passos  que me seguem.
É hora de dizer adeus.
Quando a escuridão cair
Será que uma vela será acesa?
Aqui eu rezo
para que ninguém chore
e para que saibas o quanto te amei.
A longa espera no meio de um dia quente de verão
um velho pensamento
lembra-me o rosto do meu pai.
Até a solitária flor selvagem se afasta.
Quão profundamente amei.
Como o meu coração acelerou ao ouvir a sua débil canção!
Eu te abençôo.
Antes de cruzar o rio negro
com o último suspiro da minha alma
começo a sonhar com um manhã de sol brilhante.
desperto outra vez
ofuscada pela luz e o encontro...
esperando por mim.

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