Momento I
onde se fala da impotência
Filho de pais, não propriamente pobres, mas com uma economia que se esgotava a cada final de mês, parecia no entanto que o universo conspirava para fazer de Omar um rapaz viajado, culto, inteligente e capaz de ludibriar o destino a que o isolamento em que vivia, à partida, o condenava.
Nas suas palavras ainda imaturas adivinhava-se já um fulgor criativo quando, quase menino, começou a experimentar a escrita como expressão do seu respirar ousado. Nas montanhas onde crescia, das formas mais inesperadas e extraordinárias, iam-lhe parar às mãos livros de escritores e poetas que o inspiraram nos primeiros versos trôpegos e indecisos e numa prosa que, essa sim, prometia uma voz própria e singular. Havia quem dissesse que aquilo só por magia. Dos avós pastores e dos pais comerciantes, apenas herdara o amor pela montanha que carregava o nome do semi deus grego e que, de forma imponente e magnífica, segurava o firmamento ao percorrer quilómetros de beleza ímpar até desaguar nas areias do deserto.
Tocado ele também pela desdita da rebelião, não contra o Olimpo, mas contra uma vida que pouco mais do que estrelas lhe podia dar, aproveitou o mecenato de um viajante impressionado pela sua genial sensibilidade e argúcia. E foi com um coração descompassado, acostumado a fundir-se na virginal sacralidade da natureza mas também ávido de conhecimento e aventura, que Omar viria a percorrer o mundo.
Com trinta e poucos anos era já reconhecido no seio das elites literárias pelos três, segundo a crítica, surpreendentes e refrescantes livros que publicara. Mais ou menos por essa altura, numa das suas irrequietas passagens pela Europa, deixou-se impressionar pelas águas de um rio largo e manso, a descansar do seu destino marinheiro nas faldas de sete colinas, que cheirava a cravos e sonhos e que acolhia e reflectia uma luminosidade inteira nas casas das vielas e avenidas. Magicava um novo romance, um grande romance. Tinha-o todo na cabeça, só não conseguia vencer o branco da primeira folha, como se lhe faltasse um elo, uma ligação. Na verdade ele sabia que o embaraço estava na primeira frase que não lhe surgia. Acreditava, como Valéry, na origem transcendente do primeiro verso, da primeira frase. Mas Deus, a musa ou o que fosse não o estava a assistir e sem esse empurrão inspirativo a conquista que lhe competia fazia-se difícil. Ideias desencontradas debatiam-se ferozmente na procura de um gancho narrativo mas perdiam-se num estéril vazio mental. Omar detinha-se nessa incapacidade de regular os seus pensamentos, ora pontuados por rasgos geniais, ora intercalados por fragmentos incompreensíveis. Começava a sucumbir a um estado insone e depressivo quando, um dia à tarde, deambulando ao acaso pelas ruas de Lisboa, deu por si parado, em frente à fachada principal de um grande edifício onde alternava a cor amarela da pintura com o uso profuso do calcário. A meio, salientava-se um corpo arquitectónico discreto e requintado acedido por uma escadaria e uma porta de madeira. Ao fundo da escadaria lia-se, gravado a preto na calçada, Maternidade 1932. Sem olhar para cima, Omar circundou o edifício e foi postar-se nas traseiras, na rua que dava acesso às urgências. Como se aguardasse a notícia de um filho nascido, media o seu nervosismo nas passadas que separavam ambos os lados da rua para lá e para cá num vai vem incessante. Aturdido, estacou numa esquina e, encostando-se, descansou os cotovelos numa caixa de electricidade. A cabeça, porém, continuava aturdida e não acompanhou os seus movimentos. Parecia-lhe estar a perder a sua identidade. Que fazia ele naquela cidade, sem ânimo para se sobrepor à sua fragilidade? O que fora que o guiara até àquele lugar improvável? O que é que ele, realmente, fazia ali?
Foi quando viu. Um livro. Um livro, ali desamparado e esquecido, parecia chamá-lo na eloquência do seu título: Não me deixes só. Ficou estupefacto pois era o título pensado para o seu romance por escrever.
Era uma espera mútua. Nenhum deles estava a aguentar o peso da solidão. A do livro, provavelmente resultante de um abandono. A de Omar, pior que a dele, pois não se curava com a presença de ninguém. Era uma solidão intelectual mas, acima de tudo, era uma solidão espiritual, uma incapacidade de chegar a si, à sua essência, ao seu ser inteiro e criativo.
Momento II
onde tudo conflui numa fragilidade arrebatada
De manhã, ao acordar, Wallace tentou recordar-se. Uma nota de alta do Hospital Santa Maria, escorregou da mesa de cabeceira ao virar o despertador para si. Os raios quentes da manhã, já cansados de tanta e inútil travessura matinal, atravessaram as cortinas da janela para irem repousar nos seus olhos que, vagarosamente, se escancaravam a uma memória esquecida. Não se lembrava de ter chegado ao seu quarto na noite anterior. A sua última lembrança quedava-se num diálogo interno que travara na primeira fila do Grande Auditório da Culturgest. Emoções intensas haviam-no feito sentir-se confundido quanto à sua condição. Não distinguia se era o espectador, sentado na cadeira número onze da primeira fila e que deixara cair, da mala a tiracolo, o livro que sempre o acompanhava, ou se era o movimento no palco em deslizes suaves sucedidos por estremecimentos desenfreados. Diante de si, dentro de si, o bailarino. De corpo magro, pernas torneadas, olhar magnético, gestos dramáticos. Nunca se julgara capaz de expressar tanta beleza, tanta ousadia. Sentia-se um deus, leve, tão leve na sua pele convertida em suave plumagem. Não, não, mas que delírio o meu. Bailarino, eu? ofegava com uma respiração descompassada e desgovernada. Sou o Wallace. Estou aqui sentado e confuso sem saber do meu livro, é o que é. Mas...oh Deus...e deixava-se submergir num delírio atormentado e avassalador.
Ergo-me no ar com a languidez de quem acaba uma voluptuosa sesta. As notas de Debussy empurram a avidez e a sensualidade da minha metade animal na perseguição de ninfas, ou será o contrário?
Sento-me. Afundado nos limites da cadeira, observo a dança letal de Albrecht salvo a tempo pelo amor do fantasma Giselle.
Não sei o que sou nem quem sou.
A reminiscência remota de ter caído. De ter saído. Era a única que tinha. E, claro, aquele murro de agonia no estômago. Talvez por não saber do livro. Talvez. E a sensação de se ter perdido a si próprio. Uma tela branca preenchia o resto da noite.
E o que fazia, na sua mesa de cabeceira, aquele papel de alta do hospital?
Momento III
o resgate
Emília é uma jovem fotógrafa exuberante e cheia de energia. Passa as tardes, que as manhãs são para recuperar de sonos boémios, palmilhando ruas no registo do quotidiano, sempre na mira da “tal” fotografia que um dia a tornará conhecida e famosa.
Ao anoitecer daquele dia de verão tardio, depois de calcorrear ruas, vielas e becos, ei-la a subir a avenida com a máquina a tiracolo, as sandálias gastas nos pés doridos, a cortar à esquerda e a encaminhar-se para a Maternidade Alfredo da Costa. O seu instinto maternal adiado puxava-a muitas vezes para lá. Atribuía isso ao facto de a assaltar, por vezes, a dúvida se fizera a escolha certa. Se a fotografia, os amigos e a arte chegariam para lhe encher as noites compridas do inverno.
Emília gostava de surpreender o enlevo das jovens mães que saíam da maternidade com o mundo na mão e de registar essa felicidade alheia sem querer aprofundar demasiado as razões que a levavam a tal.
Naquele dia, porém, ninguém saía. Cansada de olhar a porta que não se abria, encostou-se a uma caixa de electricidade mesmo no fundo da rua. Ao lado, abandonado, um carrinho de bebé. Já com marcas de uso, parecia perdido do seu destino naquela solidão meio suja de pó e lágrimas. Não percebia quem estaria mais perdido: se o carrinho, se o bebé que ele albergara. Emília deixou correr a sua mão pelos contornos do carrinho, num toque demorado de quem quer aprisionar o amor. Desconcertada, apoiou as mãos nos bordos da caixa de metal com a intenção de subir e se sentar quando sentiu os dedos roçarem no que depois veio a verificar ser um livro. Um livro, também ele ali abandonado, com um ar de amoroso desleixo e com uma estranha frase escrita quase no rodapé da capa. “Não me deixes só”. Pegou-lhe sentindo a aspereza do pó que o cobria. Por baixo da poeira, a macieza sedosa do papel convidou-a a explorá-lo. Com o polegar esquerdo, folheou-o de trás para a frente e intrigou-a ver páginas e páginas em branco. Quando chegou à primeira surpreendeu-a vê-la preenchida por duas grafias distintas. Uma, já um pouco desbotada, intrincada, angulosa e leve. Outra, rápida, marcada e com as letras desligadas.
Para o meu querido Wallace
(assim começava a primeira)
Pasmas de estranheza por te oferecer um livro em branco. Pensa-lo vazio mas, como na cor branca, que junta todas as cores do espectro e que reflecte todos os raios luminosos, nele tudo encontrarás. O que eu lá gravei com amor indelével e o que tu lá hás-de inscrever. Ele és tu, meu pequeno Wallace. Saberás isso à medida que os anos te forem fazendo. Quando já não te lembrares de mim, de ti, de quem és e o que fazes, regressa a ele. Herdaste a minha condição frágil e eu não estarei cá para te ajudar a crescer nem apoiar nas crises mais difíceis. Encontrar-me-ás, porém, sempre que quiseres, na página por ti aberta.
Com todo o amor
tua mãe,
Lyn
(e noutra letra, lia-se o seguinte)
Quando te encontrei pensei-te meu. Ao descobrir-te assim, virgem na aparência e prenhe de ideias por inventar, desejei tanto que fosses a justificação e o remédio dos meus desatinos!
Contudo, ao percorrer-te, li a história que as tuas páginas contam. Não é minha, nem poderia ter sido eu a escrevê-la. Até hoje, eu não sabia escrever assim. Talvez tenha sido esse o teu legado.
O impulso imediato de te levar transformou-se na certeza amadurecida de que, se eu lhe cedesse, te perderias irremediavelmente. Ficas com quem, se tu desaparecesses, já não se encontraria.
Omar
Num gesto de inspiração e apelo amoroso, Emília pousou o livro sobre o carrinho abandonado. Enquadrou uma composição, ajustou a abertura da máquina e, num ângulo a 45 graus, premiu o botão.
1 comentário:
uma história muito bem escrita, com outras histórias lá dentro :)
gostei.
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