segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Bater com o nariz na porta ( a pensar na mãe)


Há um pouco mais de dois anos escrevi este texto:

Bater com o nariz na porta ( a pensar na mãe)

A tua porta, as nossas portas só mais tarde se abririam.
No tempo de todas as possibilidades, sem o saberes, foste fechando a tua e cedeste o teu lugar no meu espaço e no meu tempo a outras portas: que eu, curiosa, abri e transcorri.
A tua porta abria-se numa direcção oposta à minha: a dos dias sempre ocupados, a do trabalho,  a da construção das horas.
 Fechava-se para a minha sede de pássaro e para a minha desconstrução do tempo.
 E condenaste-me a ser cigarra.


De uma forma menos metafórica, é certo, necessito agora, recém-chegada de uma semana de mergulho ao inconsciente, de fazer  a desmontagem desta história que me contei.
Hoje percebo que só fecha portas quem está adormecido.
Que fui sempre eu quem se fechou para ti e, com consequências mais nefastas, para mim. Não me disseste, porque não o sabias, que a preguiçosa não era eu mas sim as minhas acções. E eu, inocente, tomei o todo pela parte.
Não percebi que, quando me encantei com a beleza do canto descomprometido da cigarra e condenei a labutadora formiga que a não compreendia e rechaçava, me limitava e amputava. Dividi em duas a que era só uma: a que luta pelo pão e bem-estar e a que desfruta de ambos. Desembaracei-me da primeira logo a seguir a uma primária nos píncaros dos elogios e, quando todos esperavam uma aluna com brilhantes notas no liceu, trapaceei-os a eles e a mim e a mediania  venceu. Desiludi expectativas sem me importar nem ver que era ´eu´ a quem desiludia.
Ocasionalmente, as duas metades digladiavam-se. Nessa disputa, ora vencia uma ora a outra. Mas em cada vitória morava a culpa, desconhecedora de que era a consciência da amputação que a gerava.
 Já de canudo na mão, de olhos vendados num jogo de cabra-cega, fui orquestrando tramas e aconteceres para provar, na minha vida,  que a coexistência de ambas era mais que improvável. Tinha que ser impossível. Se manifestava  a formiga, a curto /médio prazo o insucesso acabava por injustificá-la. Se manifestava a  cigarra as depreciações anulavam-na.
Ok, mãe. Eu fui a cigarra que tu não te permitiste ser. E tu a formiga que eu não queria reconhecer. Olhávamo-nos no mesmo espelho mas não nos víamos. Passávamos por nós próprias e não nos reconhecíamos. Era eu a ser tu, tu a seres eu. 
Incompletas. 
Por isso as portas fechadas. 
Que só entreabrimos lá mais para o fim do teu tempo quando já não eras capaz de ser formiga e eu fingia não ser cigarra.
Ironicamente, nesse jogo de metades, nem tive consciência que, quando eles eram pequenos, era a formiga que eu procurava mostrar aos meus filhos. E para eles não queria a cigarra.
Ainda vou a tempo de resgatar ambas. Sem culpas e em paz.







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