quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A escada e a menina



A escada tem alturas de montanha. Os seus degraus acolhem e apressam os passos de quem  vai ajudar a nascer a menina.
De lá de cima, é a escada que lhe ensina as flores, o pátio das brincadeiras e que lhe mostra, ao longe, os campos lavrados, as searas de centeio semeadas de frondosos castanheiros e os pinhais.
A escada é a morada do faz-de-conta, palácio e cabana onde levedam sonhos, germinam aventuras e brotam estrelas. Tecida em quartzo, feldspato e mica, tem recantos de aconchego do sono das bonecas da menina e, num dia mal calculado, a menina-mamã, entretida no sobe-que-sobe, desce-que-desce, brinca-que-brinca, salta as alturas e o quinto degrau da escada, de aresta inocentemente afiada, rasga-lhe a língua e ensina-lhe a dor quente e doce do seu sangue. Grande é o sofrer da escada que se tinge de escarlate e não se quer perdoar.
No tórrido das suas lajes nas tardes de verões continentais, em que nem o ar sabe como respirar, ficam mais reais as quiméricas aventuras de corsários e sandokans que a menina, quinzenalmente, aluga na biblioteca itinerante.
Já o morno do seu assento, nas noites estivais, é testemunha das primeiras descobertas míticas: românticos luares de Agosto que tingem de luz branca a insondável noite, permitindo penetrar os seus mistérios e acreditar no para lá do possível; desejos endereçados às estrelas cadentes que, ocasionalmente, ousam riscar e desfigurar o céu estrelado num desafio à composição matemática das Ursas, Cassiopeia, Orion e Leão...
Nessa noites a escada tinha ouvidos para confissões e segredos. Mordia-se de riso, às vezes, da ingenuidade da menina. Marejavam-se-lhe os olhos, outras, quando percebia o quanto ela tinha crescido e o saber que em breve a deixaria.
Com o passar do tempo, foi escurecendo e ficando mais sozinha, velha, amarga, rota e gasta.
Primeiro os rigores do clima, depois o abandono, depois a negligência dos pés que se seguiram transformaram os seus degraus esculpidos no amor em banais pedras de granito remendadas de cimento.

Envergonhada da sua vulgaridade, mordeu os lábios e deixou cair duas lágrimas na tarde em que fingiu não sentir a presença da sua menina que, numa breve passagem pelo local, pediu licença para revisitar os seus sonhos de criança.
           
           

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