sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A menina e a janela


Subia-se lá acima por uma escadaria de madeira. Apoiada num corrimão sólido e inabalável, oferecia uma segurança convidativa a galgar os seus dois lances que somavam quinze escadas e que lá em cima se abriam para a intimidade de dois quartos.
No da direita, uma sacada protegia-se por uma balaustrada em ferro forjado que na primavera e verão se vestia de brincos de princesa, raiados de branco e de tonalidades várias de encarnado desde o carmesim ao magenta, do escarlate ao vermelhão. Porém, a proximidade dos limites impostos pelas casas do lado contrário da rua apequenava o horizonte da varandinha romântica e ocultavam-na do olhar de príncipes em corcel branco em demanda de princesas adormecidas.
Talvez por isso a menina dormia no quarto da esquerda.
Neste, uma janela pequena. Nesta janela nascia um longe sem fim. Um longe indecifrável. Intangível como o sonho.
O sonho e o seu mundo.
O seu mundo corporizado em campos onde se erguiam altivos os freixos, os amieiros, as macieiras e uma ou outra cerejeira, onde ela se enfeitava com colares, pulseiras e brincos. Um mundo que se enchia da música primeva das cigarras, ralas, cucos, melros e rolas. Um mundo perfumado pelos goivos, cravinetas, rosas e crisântemos.

O mundo noutros povoados, noutras casas, noutras janelas. Dentro dos olhos de outras meninas.

Parecia-lhe um livro a janela, em duas partes dividida.
Com a cautela de quem se aventura nos mistérios empurrava a metade inferior que, ao sobrepor-se à sua parte gémea, rasgava um buraco na intimidade do quarto e do mundo. Para lá das paredes. Para lá dos limites. Como nos livros.
Debruçada no parapeito dava-se ao sonho.
E construía histórias de si e de outros meninos e meninas. Quiméricas histórias onde só as pessoas-fadas livres, ricas, bondosas e belas, ajudadas por duendes solícitos e puros seres angélicos davam ordens, ditavam regras e reinavam. Livre de criar os dias caiu  na  armadilha de ignorar que as pessoas-bruxas são parentes próximas das pessoas-fadas e tão íntimas que sabem invadir o seu interior. E que à mínima lhes pregam uma rasteira quando se sentem desaprovadas ou desprezadas.
Quis ser só menina-fada no parapeito daquela janela. E foi assim que começou a pôr fronteiras na dicotomia sonho e realidade e a criar as suas múltiplas personalidades que se revelavam à vez.
Gostava de mostrar ao mundo a sua face feérica e encapotava os embustes, as intimidações, as desobediências, as mentiras e as acções vergonhosas da faceta de bruxa que já morava em si.  Lá bem fundo, acorrentada num poço que nem sabia.

Quando a menina deixou de o ser , incapaz já de ver só o céu, abandonou-se a si e à janela. 

Sem comentários: