Não me lembro bem quando ambos decidimos que seria assim. Talvez tenha sido quando ela veio aqui parar e foi ficando até já não ser possível regressar. Regressar a nada depois de te conhecer, costumava ela dizer-me.
Aquilo ali era quase um deserto de tanto que o calor tinha queimado a pouca vida vegetal do estio. Havia dias, por sorte poucos, em que o ar pesado e suspenso parecia não ter forças para se mexer. E o tempo parava também. O relógio segurava os ponteiros e nenhum homem, mulher, cão, gato ou bicho respirava. Momentaneamente todos entravam em estado de estivação.
Pelo canto rouco de secura do galo, adivinhei as horas. Horas de me levantar que hoje tudo tem que ser feito com tempo. O tempo que os rituais pedem. Ontem retirei do fundo escasso do poço, água suficiente para o banho de ambos. À conta disso as couves ficaram sem rega, mas também não é todos os dias que um homem se casa. E quero que ela volte a perder-se no meu corpo. Quero embriagá-la de cheiro e de saudade.
Enquanto se ensaboava com o sabonete de sândalo que ela lhe oferecera, sentiu em cada centímetro do seu corpo a longa espera pelo corpo dela. Desde que se tinham decidido pelo casamento, ela resguardara-se, mudara-se para o quarto pequeno dos fundos e negara-lhe qualquer avanço exigindo-lhe um afastamento do seu corpo que ele não compreendia. Tudo lhe dera e tudo lhe negava. Consentia-lhe apenas uns beijos fugidos. Ficaria assim mais sacralizado, justificava-se ela.
O sol derrete-se-me na pele. De tão escanhoada, parece que me rebenta de lisura. Está macia como ela gosta. Sem nenhum atrito passeará pela dela, num afago que durará a nossa eternidade.
A fogueira do sol começava a colar-lhe ao corpo a camisa de linho branco que ele acabara de vestir há pouco. Esticara-a com o ferro de brasas durante uma boa parte da manhã. Ficara um brinco, lisa e sem qualquer vinco. Pôs a gravata que o pai lhe deixara e cujo nó mantinha sempre feito pois receava não ser capaz de o refazer. Por cima, o casaco que comprara na feira, havia uns três anos, a pensar numa ocasião especial. Já vestido, uma súbita inquietação segurou-lhe a voz e desajeitou-lhe os movimentos. E num momento o dia foi a vida. E sentiu que era já um homem.
Uma mistura de sensações anunciam-ma. Consigo cheirar a suavidade com que vem, ver o sabor de que é feita e ouvir a cor com que se enfeita. Viro-me e ei-la. Em pé, como se sempre ali tivesse estado. À minha espera. Como a Terra. Ela parece, ela é o espírito deste lugar. Queimada de fogo, ostenta as curvas redondas da Terra, guarda no oceano do corpo os mistérios da lua e oferece-se numa dádiva de vapores raros. E eu numa ânsia de poder cuidá-la e fecundá-la.
Quando calcularam ser meio-dia, deram-se as mãos e, de pés descalços, mergulharam na terra barrenta e fervente e sentiram nas pernas o restolhar das ervas secas. Ainda ouviram o mugir longínquo da manada. Com o sol a pique, olharam-se e perderam-se no olhar. Era o momento de sombra zero. Uma brisa cálida festejou com eles aquela sublime união. Ambos juraram e fizeram ali o amor que sabiam, enquanto mil sóis explodiam uma trovoada de luz.

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