sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A idade dos anos


Não sei o que foi que me lembrou dela. Mas com a lembrança veio o sentir dos tantos anos que passaram depois que a ouvi, teria eu para aí uns seis anos, responder à filha com uma comoção subitamente esperançada no olhar: já lá não vais? Ora não, não vais, acrescentava meio desconfiada do sortilégio das palavras ‘já lá não vou’. O seu desconhecimento das diferentes geografias e de que os rigores do clima se manifestavam mais cedo no continente longínquo onde o genro esperava a filha, misturado a uma patética esperança, confundiu-lhe as palavras espantadas que a sua Lídia lhe gritou numa pausa da leitura da carta que acabara de receber: ‘já lá nevou’. No meio das explicações, como se lhes entendesse o sentido mas não lhes quisesse a realidade, lembro, como se fosse hoje, os seus braços encurvados a caírem-lhe ao longo do avental preto de viúva como se à procura do conforto nos bolsos e o seu olhar outra vez conformado com a inevitabilidade da separação. Acho que ela nunca recuperou do afastamento de tantos milhares de quilómetros e nunca perdoou ao oceano, que nunca viu, não ter obrigado a filha a cumprir o que prometera. Daqui a um ou dois anos venho cá, dissera-lhe ela nas lágrimas da despedida e num abraço que a tolheu de fragilidade. Mas os anos a passarem e a vida a fazer-se lá longe, longe. Sem pontas a unir as duas vidas a não ser as ocasionais cartas que o carteiro lhe trazia. Quando vinham gordas traziam fotografias de uma casa muito diferente da dela, de meninas com vestidos de rendas e tules e laçarotes na cabeça. Mostrava-as, orgulhosa, às vizinhas e amigas: são as filhas da minha Lídia, qualquer dia vêm cá. Nos dias do estio quando dava conta de um ruído nas alturas, lá em cima no azul do céu, a desenhar estradas fininhas que se punham largas à medida que se desfaziam e diluíam no branco esfiapado das nuvens, erguia o olhar pedinte. Como a querer decifrar ou unir caminhos. À minha avó restou-lhe o filho mais velho, que esse nunca a abandonaria. E também os netos e netas, filhos e filhas dele e da nora, que a cuidava como se sua mãe fosse. Um dia acreditou que já não era necessária, julgou que não prestava, que era uma velha inútil. Foi quando a escusaram de ajuda na cozinha por ela já confundir os alhos com as cebolas e só aproveitar meia batata porque lhe tirava grossa a casca. Mas para mim ela não era uma velha. Era a avó que sorria, que me dava ternuras de rebuçados escondidos e que me chamava pelo nome próprio inteiro.
Gostava de gatos e de plantas e os gatos e as plantas gostavam dela. Na sua sala grande, entre os poucos móveis reinavam altivas colunas de madeira coroadas com vasos de viçosas begónias, espargos quase a chegar ao chão e avencas de um verde tão verde como nunca vi outro. No jardim atrás da casa eram realeza os goivos, as cravinetas, as hortenses, os crisântemos e os brincos de princesa.
Foi ela quem me ensinou a gostar de figos com pão nos lanches que fazíamos debaixo da figueira no quintal. Depois ensinou-me que as uvas das latadas eram as primeiras a pintar e a ficarem boas para comer. Incentivou-me a subir às cerejeiras. A fazer colares, pulseiras, brincos e anéis com os pés de cerejas entrelaçados de vermelho vivo, escuro ou amarelado a que nós chamávamos de branco. Também me quis ensinar que nem todas as partes do corpo são inocentes, que de algumas as meninas devem ter vergonha. Baixa o vestido, olha que nas pequenas os homens vêem as grandes, dizia-me ela quando eu, deitada no chão, fazia o pino junto a uma parede. Reproduzia o que ouviu à mãe dela ou talvez à avó, quem sabe. Confinada ao pequeno mundo de duas aldeias nunca questionou a verdade do que lhe foi dito. Tomava café fraco de cevada e, de manhã preparava-me uma tigela de leite pingado com sopas de pão. Era no tempo em que dormia na casa dela para lhe fazer companhia. Nessa altura ela ainda não precisava de ir tomar todas as refeições a casa do filho. A sua cabeça funcionava perfeita nas conexões que estabelecia e não tinha brancas na memória. Ainda não regressara ao tempo da infância. Ainda não se escapava e nos deixava aflitos. Quando isso começou a acontecer e a encontrávamos, sorria-nos, cândida, e dizia que andava à procura dos irmãos pequenos, que a mãe assim lho pedira. Nessa altura também ainda não perguntava ao filho: viu por aí o meu filho, há dias que não sei nada dele. Com voz calma de paciência sofrida eu ouvia-o responder: sou eu mãe, o seu filho. Fui, no seu tempo final, uma espécie de dama de companhia. Dava-lhe o lanche e ficava com ela na sombra da tarde não fosse ela perder-se nas lembranças dos irmãos, da casa e da terra onde se criou e viveu até casar. Essas horas eram roubadas à brincadeira e eu ressentia-me com isso. Parecia-me que estava a viver o mundo ao contrário.
Foi no Inverno. Sem os estertores a que a minha imaginação de garota associava o momento da morte, ela deixou de respirar. Só isso. Como um passarinho comentaram depois as pessoas da aldeia. Foi perdendo as forças, já sem se levantar da cama, já só a tomar alimentos líquidos que tantas vezes lhe fiz chegar à boca pelo bico de um copo. E no último dia, um dia particularmente frio de Novembro ou Dezembro, já não lembro bem, o meu pai antes de ir para o trabalho encheu duas botijas com água quente, colocou-as amorosamente na cama dela e virando-se para o meu irmão e para mim entregou-nos a sua responsabilidade: mantenham-na quente, tomem bem conta dela.
Na hora que separa a tarde da noite, vi o que não poderia ter visto. O filho dela a soluçar desamparado como fazem as crianças.
Tantos anos. E a vida aconteceu. Tantos dias de esquecimento. E hoje sinto todos os anos que passaram. Talvez pela aproximação do Natal e a forma como ela me acordava, me estendia um sorriso e me levava a espreitar os presentes que o menino me deixara junto à lareira.

Sem comentários: