Um velho carrinho de linhas, água e sabão, ali deixados por descuido no banco do jardim, eram um convite irrecusável a revisitar a infância.
E foi numa bola de sabão, à transparência candente da luz crepuscular, que imagens de mim começaram a desfilar.
Eu estava fascinado, mas tinha dificuldade em me reconhecer nas formas holográficas que, estranhamente, se harmonizavam e reflectiam naquela bola de sabão.
Lá estava eu: ora índio, ora branco, ora negro, ora mongol. Era cada um deles e todos ao mesmo tempo, num tempo sem tempo.
Enquanto uma parte de mim ordenava ao cérebro que pusesse fim a tamanho e insensato desmando, a outra acalentava o desejo que as insólitas imagens não se desvanecessem como acontece nos sonhos ao acordarmos.
Semicerrei os olhos e abri-os de novo.
Num instante eterno e fugaz, eu era menina de laçarotes a domarem a rebeldia lisa do cabelo escuro e brilhante. Era carapinha curta e olhos misteriosos de rapaz a fitar a esperança dos dias. Era rosto de mulher a surpreender os cheiros e os sabores da vida. Era um contorno de lábios andróginos, entreabertos, numa espera.
Era eu, sim, ainda potencialidade pura. No tempo em que os cabelos eram barcos, os olhos peixes e as bocas flores. Quando a vida se abria a um campo de possibilidades infinitas.
Era o tempo de sonhar em contribuir para nivelar o desigual. Das certezas de um mundo solidário sem raças, dogmas, convicções ou injustiças.
Nessa altura ainda não tinha começado a ouvir vozes que, insistentemente, me recordavam Prometeu e sussurravam vaticínios de desgraças semelhantes e também ainda não sabia que a minha desgraça não viria a ser essa, mas outra. Ainda não sabia que, um dia, perpetraria o maior dos abandonos.
Nos bancos da escola, eu era dos primeiros a sair em defesa dos que não tinham voz. Tão temerariamente o fiz que, um dia, deixei de poder usar a minha. Foi-me dado escolher entre vegetar dentro de quatro cantos ou ouvir conselhos avisados que me segredavam que esquecesse e seguisse uma carreira respeitável de advogado.
Hoje, aqui a passear pelo tempo, uma bola de sabão fez-me esquecer o peso que, desde então, carrego e ajudou-me a lembrar-me de ti, ou seja de mim.
A angústia pinta as casas do cenário onde me encontro e as árvores, já cobertas por um ténue anoitecer, ondulam o vento com suavidade. Mais além, no mar, navegam pequenos barcos mergulhados em algodão. A saudade pergunta por ti, querido imaginário de uma vida que não cumpri.
Uma brisa repentina fez a bola de sabão dar piruetas no ar e despenhar-se irremediavelmente na poeira do vento. Ou teria sido a inveja da gravidade que não suportou a insustentável consciência do momento?
3 comentários:
Mais um belíssimo texto!
Obrigada!
Como sempre ... é perfeita a tua escrita! Delicio-me com ela.
Obrigada Irene pela mensagem transmitida no "Imaginário". Sou o irmão da Fátima Campos. Estarei atento ás suas publicações que são fantásticas.Bjs
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