segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Texto com livros dentro

Tara levara algum tempo a tomar aquela decisão. Uma vez tomada era porém tão inabalável que nem conseguia perceber como aguentara assim tanto tempo.
Tal como a heroína daquele livro que lera, ia numa  carruagem para mulheres. E, como ela, para trás largava o lastro sarrento da sua vida e o que, na credulidade de criança, pensara ser o seu palácio da lua. Mas já há muito que percebera que até a lua, só por generosidade, derramava a sua nostalgia naquelas paredes desbotadas e semeadas de janelas, que raramente se abriam porque era preciso conservar o fresco dentro de casa. A mesma casa que fora a sua prisão de menina, rapariga e mulher. Nos raros momentos em que conseguia escapar e se perdia num cotovelo afastado do jardim, na contemplação da vida secreta das abelhas, esquecia-se que  a sua vida não lhe pertencia e adejava sobre a colmeia, num volteio de sonhos riscados de amarelo torrado, em busca do afecto que o austero pai lhe negava e que a submissa mãe não ousava. Depois das desoladas brincadeiras da infância solitária, algum anos de fantasia na escola, logo interrompida pela brusca necessidade de começar a trabalhar. Tinha que ajudar para que o irmão, ele sim, pudesse continuar a estudar.
Casa, autocarro, comboio, repartição pública, comboio, autocarro e casa. Foi assim que desfilaram, monótonos, os seus dias. Quebrados assim que nasciam. A sombra do vento marcou-lhe o rosto com linhas duras e desencanto no olhar e os sinais da juventude acabariam por se perder irremediavelmente na secura áspera e na espera sempre adiada como a do capitão do deserto dos Tártaros.
Mas hoje atrevera-se a abrir as portas da gaiola. No comboio azul, rumo às ondas, numa carruagem talvez parecida com a do livro que lera e lhe dera a coragem  para fechar a corola da flor desistente que fora.
O deus das pequenas coisas começava a entrar nela. E isso encheu-a de uma confiança luminosa. Naquela manhã, com a vontade liberta, emprestou o seu olhar a coisas em que antes nunca reparara: o perfume da lua que, num beijo madrugador de despedida, conseguira atravessar as gelosias da janela; o alegro do canto sinfónico das cigarras  no jardim; a felicidade cúmplice dos namorados a caminho da estação; os improváveis sorrisos dos transeuntes.
Como se alegrava agora por não ter sucumbido ao desânimo. Se tivesse cedido às insistências do velho vizinho da frente, que a cortejava há uns dez anos, só teria conhecido o amor em tempo de cólera. Mas não. Perguntara-se, na altura, se uma mulher independente também podia ser feliz e achava que a resposta estava ao seu alcance.
Através da janela, corriam velozes os extensos campos de arroz, onde o peso dourado das espigas dançava, cantava e exultava. O seu coração regozijou-se também com a escolha, quiçá louca, que fizera. Ia a caminho do mar. Pela vez primeira ia ver o frio das vagas e os raios tórridos do sol. Inventou os dias por existir e cavalgou a imaginação como um potro rebelde, indomável, como se a vida fosse contraditoriamente deliciosa, assim como lhe fora revelado na noite do oráculo.
Questionando-se a si e às suas convicções, soube que aquele nome estranho, que um dia o jocoso pai lhe chamara (depois de um assomo seu de revolta pueril) e cujo significado tivera que procurar no dicionário, deixara de se lhe aplicar. Mesmo aos quarenta anos, não era psicasténica quem ousava iniciar viver  a sua própria vida, libertando-se do jugo que lhe fora imposto.

Em itálico, no texto, os nomes de alguns romances maravilhosos que li:

Carruagem para Mulheres  - Anita Nair
Palácio da Lua – Paul Auster
A Vida Secreta das Abelhas – Sue Monk Kidd
A Sombra de Vento  - Carlos Ruiz Zafón
Deserto dos Tártaros  - Dino Buzzati
Ondas – Virginia Woolf
O Deus das Pequenas Coisas – Arundhati Roy
Amor em Tempo de Cólera – Gabriel Garcia Marquez
A Noite do Oráculo – Paul Auster

2 comentários:

Anónimo disse...

Um texto que deliciosamente materializa a intertextualidade de que vive a escrita. E que nos abre o apetite para a leitura dos títulos sugeridos!
Paula Sexauer

Anónimo disse...

Adorei! Assemelho-o a uma ementa recheada de entradas coloridas e deliciosas, pratos saborosos e suculentos, sobremesas frescas e cremosas!
Adoro "viajar" na leitura e que a mente mergulhe num universo paralelo.
Claramente isso aconteceu contigo! Vou espreitar alguns dos livros sugeridos!
Beijo