Estou sentada numa cadeira cor-de-rosa que não pára de girar na tentativa de capturar as memórias que me rodopiam na cabeça. Já não sei se as memórias não morarão no coração. Pelo menos as fiéis. A cabeça conta muitas histórias, frequentemente para se proteger de dores, mal-estar, solidão.
Olho através da janela, onde umas japonesas de cor turquesa filtram o sol. Lá fora uma árvore sobranceira veste-se de vermelho escuro. Chegou à idade madura.
Como ela, madura, vejo aproximar-se a tenra infância vestida de bibe multicolor, tranças compridas, louras, muito douradas. Calça sete anos de botas castanhas de borracha. Caminha saltitando com a confiança espelhada no olhar e a alegria da primavera. Vejo-a afastar-se ao chamamento mais velho da irmã e perco-me na distância do tempo.
Algumas folhas caem lá fora e lembram-me os anos que na minha vida foram caindo um após outro até perfazerem catorze inseguranças, catorze timidezes, catorze vergonhas, catorze fingimentos, catorze dúvidas.
O número catorze cortou-me o cabelo e escureceu-me o olhar. Obrigou-me ainda a mudar muitas coisas: a casa, os hábitos, os gostos. Questiono-me e entristeço sem razão. Ouço comentar que é assim que se cresce. E eu quero crescer depressa. Não gosto deste número. Mais um, mais dois, mais três...e...novamente na cadeira giratória, deixo o meu olhar ir além do tempo e sentir a aproximação de uma jovem que caminha mais segura que a adolescente que ainda carrega.
Escureci o cabelo e dei-me ares de adulta. Tenho a solidão semeada no olhar mas corro por entre pessoas e lugares como se isso me fosse trazer a felicidade. Descubro-me atenta à realidade social e a querer fazer mudanças. Revolto-me, esbracejo, vou na onda para logo, no sossego do sono, me perguntar onde estou e onde me levo.
Creio que não me conheço. Dou por mim a desenhar diferentes perfis. Qual deles sou eu?
Volto à árvore que, com placidez, perdeu o verde, passou pelo amarelo, laranja e beringela. Amadurecida pelo tempo e sabedoria, resiste às intempéries a que a Natureza a sujeita. Até um dia acabar. De assombro: por mesmo assim ficar de pé.
4 comentários:
Delicioso, querida Irene.
Gostei imenso!
oh Irene, que bom sentir-te tão TU, cada vez mais, cada vez mais perto cada vez mais dentro, cada vez mais forte e inteira. E não é uma Irene nova, é uma Irene que já lá estava como a pele que vem à superfície cada vez que cai a camada velha, mais exposta às intempéries e tentativas de manobra externas. É uma Irene novinha em folha porque mais perto dela própria. Que grande orgulho assistir a tudo isto! Que inspiração, que booooommmmmm! Até muito em breve! beijos tão grandes de um 2011 que JÁ é novo por ti!
Que bom que decidiste partilhar connosco o teu sentir. Adorei. Obrigada Amiga!!! Anabela M
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