terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os filhos do vento


A propósito do último post ou de como o amor pode vencer o medo


Verão passado, Alentejo, eco-aldeia de Tamera.

Naquele princípio de tarde de quarta-feira, com um propósito mal definido rodeei o  lago grande, engoli nuvens de pó que alguns raros  veículos deixavam atrás de si, desafiei  a verticalidade no tórrido pino solar, enveredei por um caminho branco e solitário ao som de uns passos que só podiam ser os meus e cheguei ao local do estábulo e do campo aberto dos cavalos.
Sempre tive, desde que me lembro, pavor da proximidade dos cavalos e nunca consegui montar nenhum daqueles que a infância me proporcionou. Talvez me intimidasse a realeza que estampavam no olhar. Talvez me amedrontasse a luxuriante opulência que quatro cascos sustinham num mexer irrequieto e constante.Talvez receasse um coice traiçoeiro, uma pisadela inadvertida, uma fustigadela de cauda certeira. O certo é que me furtei sempre ao seu contacto e, já em adulta, materializei esse medo num momento de terror paralisante.
Corria, também nesse dia, a tarde. Era o meio de uma tarde de sol de fim de inverno. Num picadeiro, uma montada cansada de um volteio monótono e forçado, tombava a cabeça até ao chão, sacudia o que poderia ser um insecto, dobrava as canelas e ameaçava rebolar-se e derrubar-me a mim, estreante cavaleira de pouca coragem. Com os olhos esbugalhados de espanto, antevi a cena dantesca de me sentir soterrada debaixo da barriga redonda do quadrúpede que, na ânsia de se libertar do que o incomodava, dava voltas e reviravoltas acompanhadas de pequenos relinchos. Com a cabeça a ordenar uma fuga providencial e o corpo a não obedecer, a ficar paralisado e sem reacção, fui-me imaginando debaixo do hercúleo animal, magoada, esmagada. Quis correr, quis fugir, mas as pernas não obedeciam. Num instinto último de sobrevivência, a custo rastejei a salvação possível até aos limites do picadeiro, no meio a escoriações e joelhos  sangrantes.
E agora, ali, em campo aberto, no meio de onze cavalos à solta que, curiosos, ameaçavam invadir o meu espaço, a minha intimidade, aproximando-se mais e mais, perigosamente. Uns maiores que outros, todos de musculatura forte e andar largo. Dorsos sem sela, livres e poderosos. Fios longos e sedosos de crinas bailarinas. Senti outra vez aquele mal-estar a enrodilhar-me o estômago perante tamanho assomo de força e vitalidade. Em pânico com essa aproximação invasiva, numa auto-acusação pueril, perguntei-me em voz alta porque é que estava ali, verbalizando o meu medo e afirmando a vontade de sair dali imediatamente.
Almut, a responsável pelos cavalos em Tamera, olhou-me nos olhos e disse-me na sua voz germânica seca que eu estava ali precisamente por causa do meu medo. Que desse uma oportunidade ao medo de começar a ir embora e que tivesse confiança. Foi a palavra confiança que me salvou. Fiz dela o meu mantra numas inspirações fundas e forcei-me a coragem de ficar.
Quando consegui um sossego aparente, os filhos do vento  vieram até mim. Uma égua avançou decidida e, mesmo à minha frente, ali ficou numa quietude de nobreza de sangue. Eu quase mal respirava. Era tarde para voltar atrás. Outro cavalo tomou o seu tempo para encostar o focinho à minha cabeça e ombros. Coçou-se na minha anca e costas e mascou na minha pele como se carinhos me desse. E no meu corpo iniciou-se então um processo químico. O receio, o soluto que me habitara por inteiro, foi-se diluindo numa solução saturada do solvente portado pelos perissodáctilos. Deixei-me embalar naquele contacto demorado, gentil e soberano. Lembrei-me de Robert Redford e do filme O encantador de cavalos e pensei que poderia não ser pura ficção.

1 comentário:

Anónimo disse...

E será ficção este teu texto, Irene? Se realidade, suficientemente ficcionada para deixar de o ser; se ficção, suficientemente real para assim a sentirmos. Um momento de prazer, em todo o caso. Obrigada!
Paula Sexauer