Chegou de mansinho, riscou as águas, tocou nas penas e abrandou-me os passos para vir pousar-me na face. Depois, senhor de todos os lugares, volteou, ficou suspenso no ar
e foi dizendo…
que a primavera chegará mesmo que o seu nome fique esquecido e que já ninguém acredite nos dias do calendário
que chegará mesmo que não haja jardins para a receber
que nenhum inverno foi longo demais para morrer
que nenhum inverno foi longo demais para morrer
que é preciso um ritual na natureza, um compasso de espera, de embelezamento, de gravidez do sortilégio, do feitiço
e que os rituais são necessários. Se não existissem as quintas-feiras, como poderia a sagaz raposa sentir-se livre para correr os campos e namorar os galinheiros?
que se tudo fosse sempre igual, nossos olhos desmaiariam de cansaço
e que o frio, as chuvas e o orvalho preparavam o brilho e a cintilação da estação nascitura tal como o lapidador dá vida ao cascalho de carbono adormecido.
DEPOIS empurrou-me, empurrou-me. Empurrou-me e levou-me com ele, girou e rodopiou, encostou-se e não falou.
Fui eu que vi.
Uma copa folhosa muito verde e muito amarela. Uma vontade expressa de quem está para partir e de quem ainda vai ficar. Uma união perfeita e extrema.
Uma fonte e o improvável casamento semicircular de todas as cores, toda a substância e toda a essência. Efémero é claro. Mas perfeito.
O sapal, a garça na pedra, no lodo, na água. Imperturbável e segura. Branca e com graça.
A orla do parque onde as árvores repousam vestidas das cores quentes da terra. Com silêncio e sabedoria.
Nada a faltar. A vida a experienciar-se em toda a plenitude.

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