domingo, 27 de novembro de 2011

Quatro estações



A surpresa deste outono a lembrar a claridade e o afago dos dias antes dele faz-me sentar e adiar os passos do exercício. Ali, no rumorejar das agulhas dos pinheiros que a brisa leve sacode, deixo-me pensar que é como quem diz não penso. As ideias assim como surgem vão num baile desprevenido. Os momentos pequenos a tornarem-se maiores. Há nas nossas vidas instantes de minutos ou horas que são como uma vida. Que podem envelhecer-nos. Ou mostrar um caminho de sabedoria. Lembro-me de desejar ter papel e caneta à mão. Mas não, e tudo fica mais simples. Restringido ao silêncio sem registo. E ali, de olhos suavemente escancarados, tomo-me do ar, da companhia ruidosamente silenciosa dos melros e dos pardais, quietos nas copas altas, também eles naquele momento. Os carros nas ruas lá fora ressoam num mundo adiado. Como que distante. Como que longínquo. Há música nos meus ouvidos. Milagres da tecnologia.

E é um ano inteiro a acontecer.

Deitada em suspenso, o céu parece mais azul, mais envolvente. Como se me rodeasse por todo o lado. O acima e o abaixo tornam-se relativos e lembro-me ‘em cima como em baixo’.
Reparo na mansidão destes pinheiros. Redondas copas como guarda-chuvas protectores. E nas agulhas verdes de um verde tão claro e jovem lá em cima quase a tocar o infinito. Também nas de menos vigor e cor a prepararem os últimos tempos, por baixo na parte inferior da copa, para que tudo aconteça com o mínimo de esforço e com o máximo de naturalidade. Um dia caem. Porque sim e assim.
 Um pequeno grupo de pinhas, umas pardas outras de cor castanho-avermelhado, espreitam o sol numa nesga improvisada. Noto-lhes o avançado estado de amadurecimento. Lá para o ano que vem devem dar à luz. Abrir-se-ão e o primeiro acto de amor será um acto de liberdade e responsabilidade. Não há mãe como elas a dar uma asa aos filhos para se soltarem e voarem no puro instante de vida.

Os acordes, esses são cheios, intensos, a crescer e depois mais langorosos. Depois é como se o sol abrasador tudo atingisse no crepitar de um fogo criativo e criador. E a dança. A dança da colheita e da caçada enquanto o assobio do vento não chega. O anúncio da alvura pura e traiçoeira da alegria temerária do sincelo e do calor do fogo.

Mas é só uma linda manhã de sol e de afagos. Sem ter nada porque. E contudo porque. E há momentos menores que se tornam em maiores.


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